Por que os diálogos fracassam?

Como você se percebe ao dialogar com outras pessoas? E como você acha que os outros lhe percebem? O diálogo é um processo que começa dentro do indivíduo. A forma como nos relacionamos e dialogamos com os outros mostra o quanto estamos confortáveis ou não com nós mesmos. Para desenvolver a habilidade de dialogar com sucesso, primeiramente é preciso a capacidade de observar a si mesmo e identificar nossas carências e incoerências; nossas distorções e distrações. Diálogo é algo que já sabemos fazer, mas que ao mesmo tempo sabemos tão pouco. A palavra tem sua origem no latim diálogos; dia = através, logos = palavra, sentido, significado. Diálogo é, portanto, um fluxo de palavras, de sentido e significado.

Diálogo está no coração da missão de um líder, de um pai, de um marido, de um amigo. Envolve a capacidade de “pensar juntos”. Não temos que consertar coisas ou pessoas, temos que pensar juntos na busca de soluções para os diversos dilemas e desafios da vida. Não há uma única verdade sobre as coisas, nem uma única maneira de resolver os problemas. Quando vivido da sua forma mais genuína, o diálogo tem a capacidade de revelar alternativas desconhecidas para cada situação. O processo em si tem poder de solução e criação.

Por que então tantos diálogos fracassam? Há muitos motivos, dentre eles, alguns mais comuns, como a dificuldade de escutar, o desrespeito, os julgamentos e a dificuldade de falar.

1) ESCUTAR

Precisamos criar espaço para o outro. Diálogo requer espaço e silêncio interior. Tem pessoas que embora caladas não estão silenciosas para escutar. Precisamos silenciar nossa “tagarelice interior” enquanto o outro fala. Através de uma escuta ativa é possível fazer uma conexão profunda até com quem não se conhece na intimidade. O corpo revela quando o outro não está escutando e não há nada mais desagradável do que “dialogar” com alguém que está ocupado falando consigo mesmo. Observe sua qualidade de escuta. Alguns dos seus diálogos podem ter fracassado não pelo que você falou, mas pelo que você deixou de escutar.

2) RESPEITAR

Respeito vem do latim respecere que significa “olhar de novo”. Respeitar o outro é ver o outro sempre outra vez. É olhar para o outro com o olhar de inédito, de interesse, de curiosidade. Desrespeitamos todas as vezes que consideramos que o outro não tem nada a nos ensinar. Respeitamos quando buscamos enxergar o que o outro tem de melhor e de mais elevado para dar. Observe a sua forma de olhar para o outro. O quanto você considera que todas as pessoas têm algo a lhe ensinar?

3) SUSPENDER

Uma das habilidades refinadas na arte de dialogar é a capacidade de suspender temporariamente nossos julgamentos e opiniões. Muitos diálogos fracassam porque se desenvolvem em cima de certezas e suposições que polarizam a discussão. Diálogo deve ser visto como uma conversa com um centro, com um campo neutro, não com lados. Na maioria das vezes são nossas “nobres certezas” que limitam nossa liberdade de ouvir, pensar e construir junto com o outro. Diálogos fracassam quando os envolvidos não abrem espaço para um novo entendimento. Nós fragmentamos o mundo a toda hora. Temos um entendimento parcial das coisas, mas o consideramos completo. Lembremos que toda interpretação está sujeita à distorção. É preciso desenvolver a habilidade de nos esvaziarmos, de suspender nossa forma habitual de dialogar e abrir espaço para o novo que se forma no fluxo das palavras, ideias e sentimentos compartilhados. Observe a si mesmo e perceba o quanto você tem se permitido ser modificado após o diálogo. Você tem dedicado mais energia para aprender ou para fazer sua ideia vencer?

4) FALAR

O que quero falar precisa de fato ser falado? O que é necessário ser expresso nesse diálogo? O que vou falar é válido para o outro? Nem toda palavra que vem a nossa mente precisa ser falada. Muitas vezes pecamos por não falar, mas muitas outras por falar o desnecessário. Quando um roteirista de filme define uma cena de diálogo, certamente ele pensa no propósito de cada fala. Da mesma forma, ao falarmos, precisamos refletir o objetivo de cada frase que “entra em cena”. É preciso tirarmos os excessos das nossas falas e focarmos no essencial. Falar com tom de imposição ou acusação é outra razão para o fracasso do diálogo. Ao colocarmos nossas ideias e pontos de vista, é aconselhável usarmos o tom de reflexão, de convite, de proposta ou sugestão. Dessa forma, comunicamos para o outro que nosso ponto de vista não é a verdade sobre a situação, mas é tão somente a vista do nosso ponto. Observe sua forma de falar. Você tem falado com tom de verdade ou de opinião? Você tem provocado acusação ou reflexão? Antes de falar qualquer coisa, nunca perca de vista que para cada palavra dita tem uma reação na mesma medida.

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