O lugar da escola na formação de líderes solidários

Ao deixar minha filha caçula na escola, presenciei uma cena que me marcou. A turma estava saindo da sala e minha filha era a última da fila. Como ela tem Síndrome de Down, não conseguiu acompanhar o ritmo dos amigos e logo se distanciou da fila que seguia. Depois de alguns instantes, percebendo que ela tinha ficado para trás, um amiguinho voltou e começou a chamá-la, motivando-a a caminhar e mostrando-lhe com o dedo a direção. Foi e voltou duas vezes e depois seguiu ao lado dela no melhor passo e no mais rápido ritmo que ela conseguiu dar. Ele não a puxou pela mão, mas a deixou caminhar com seus próprios pés. Teve compaixão sem abrir mão de desafiá-la. Foi uma cena tão simples, tão linda e tão cheia de significado.  Uma cena que me possibilitou visualizar a capacidade daquela criança de três anos de fazer um mundo melhor e do seu imenso potencial em tornar-se um líder tão humano e solidário. A cena na verdade foi gravada e já tive o privilégio de assistir inúmeras vezes. Toda vez que assisto, tiro um novo aprendizado daquele olhar que minha filha ganhou naquele dia. Essa cena revela muito do que compreendo sobre liderança e sobre esse olhar especial que enxergo em um líder solidário:

  1. Olhar coletivo – Essa é uma das características do líder solidário. O olhar não é centrado em si. O olhar é atento ao entorno. Observa quem segue na frente como presta atenção em quem caminha mais atrás. Um olhar que deixa de ser “em mim” para ser “em nós”. Um olhar que ultrapassa a barreira dos próprios interesses e do próprio ritmo. Um olhar que não se importa em chegar primeiro, mas sim em chegar junto. Na liderança solidária os objetivos coletivos sobrepõem os individuais e a colaboração prevalece em vez da competição.

  2. Olhar de quem acredita – Muito do que sou hoje agradeço aos olhares de muitos líderes que ao longo da minha vida acreditaram em mim. O olhar de quem acredita tem poder de nos fazer crer naquilo que somos capazes. Esse olhar muitas vezes é tudo que alguém precisa para alavancar, crescer e seguir em frente. O líder solidário relaciona-se com o outro acreditando em quem esse outro poderá vir a ser. Consegue ver além do que se consegue enxergar de imediato e tem paciência para esperar o que de melhor o outro tem ainda a aflorar.

  3. Olhar com compaixão – O líder solidário não é um líder paternalista que atrofia a capacidade do outro de caminhar com suas próprias pernas. O que aquela criança fez é o que todo líder deveria fazer: incentivar o outro a desafiar-se com seu próprio esforço, respeitando seus limites com compaixão, mas sem fazer por ele o que ele próprio é capaz. Ter compaixão não é ter pena, é oferecer a ajuda necessária para que o outro acesse os recursos que têm a ponto de superar-se e seguir em frente com respeito e igualdade.

Voltando-se à origem da palavra, solidariedade é ter responsabilidade recíproca. Vem do latim “solidus” que quer dizer “sólido”. O verbo latim “solidare” significa “tornar sólido, consolidar, segurar”.  O líder solidário, portanto, é aquele que torna algo sólido. Colabora para a consolidação de propósitos, valores, relações e aspirações compartilhadas. Quem é solidário sente-se responsável em colaborar para consolidar algo maior.

A prática da liderança solidária se mistura muito com os fundamentos da liderança colaborativa, termo usado desde a década de 90. Em 1994, por exemplo, a Harvard Business Review publicou o artigo “Vantagem Colaborativa” onde Rosabeth Moss Kanter fala sobre líderes que reconhecem que muitas questões no mundo dos negócios não conseguem ser resolvidas por sistemas formais e individualistas, mas somente com uma grande rede de conexões interpessoais firmadas em uma mentalidade de parcerias e em um espírito de colaboração.

Mas o que é colaborar? É contribuir com o “labor” do outro. É trabalhar conectado a um sistema maior de relações e aspirações compartilhadas que vence a barreira do sistema menor, responsável em alimentar somente o próprio ego.  Na essência, a liderança colaborativa envolve a mudança do “ego sistema” para o “eco sistema”. No “ego sistema” o foco da atenção está em si próprio e o estilo de liderança é marcado por traços de autoridade, controle e comando. Os líderes que operam nesse sistema, geralmente tem visão limitada para as questões da sua própria área e raramente formam times atentos para a demanda de outros setores. Trabalham por território e retém informações relevantes entre si. Em situações de erros e fracasso, a tendência natural é a busca de culpados. Já os líderes que operam conectados ao “eco sistema”  possuem mentalidade de “nós”. Usam a influência e não o controle para engajar as pessoas; o diálogo mais do que o comando. Trabalham com parcerias e compartilham conhecimento para alcance de resultados comuns. Em situações de erros e falhas, responsabilizam-se mutuamente em busca de soluções.

Seja a liderança solidária ou colaborativa, ambos os termos referem-se a um conjunto de competências humanas que expande o repertório de habilidades tradicionais de controle e performance individual. Para tornar-se um líder solidário é preciso a formação de um novo modelo mental (mindset) que valoriza as divergências de pensamentos e habilidades. Quanto mais novo o indivíduo é formado nesse terreno de colaboração e coletividade, mais expandido será o seu mindset e, consequentemente, mais capacitado para atender duas das grandes necessidades essenciais do ser humano: a de contribuir e a de crescer.  

Esses pequenos líderes certamente terão mais facilidade para desenvolver relações autênticas com seus pares, valorizando a horizontalidade dos seus relacionamentos mesmo quando estiverem posicionados em cargos de autoridade e poder. Com relacionamentos mais sólidos terão também por consequência mais possibilidades de engajar pessoas e times para alcance de resultados compartilhados. Mesmo não focados em competir, paradoxalmente a capacidade de colaborar trará na fase adulta uma vantagem competitiva em relação aos líderes de mindset rígido, presos em seus modelos antigos de autoridade, individualidade e controle.

O primeiro passo para o desenvolvimento dos líderes solidários começa pela atenção dada à liderança que surge de dentro para fora, ou seja, a partir do autoconhecimento. No inglês existe a expressão “self leadership” que se refere a capacidade do indivíduo de liderar a si mesmo a partir de uma clareza de propósito, valores e visão. Estando seguros de si mesmos, não precisarão da validação de outros nem de reconhecimento para seu próprio ego. Consequentemente, serão mais aptos à criação de espaço para o crescimento coletivo e abertos para o compartilhamento do conhecimento, do poder e do mérito alcançado.

 

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