A dimensão espiritual da liderança

a dimensão espiritual da liderança

Olhar para a dimensão espiritual da liderança parece ser tarefa decisiva nos dias de hoje. Philip Kotler, considerado o pai do Marketing, afirma que as dimensões intelectual e emocional já não são mais suficientes em um mercado onde a maioria dos consumidores e colaboradores busca experiências e trabalhos que tragam ganhos além do visível e do imediato. Assim, a dimensão espiritual tem ganhado cada vez mais espaço nos ambientes profissionais.

Na opinião de Anselm Grün, monge beneditino e autor reconhecido no mundo inteiro, uma habilidade indispensável para qualquer posição de liderança é prestar atenção à própria alma”, ficar em contato consigo mesmo e visitar constantemente suas próprias emoções, medos, desejos, necessidades e paixões. Cuidando da própria alma, o líder consegue criar um ambiente favorável para o crescimento e para o florescer de outras almas. Para Grün, a liderança é vista como um caminho espiritual, uma forma de conhecer a Deus e a si mesmo por meio do serviço ao outro. Em seus princípios de liderança, a aptidão para liderar vem, sobretudo, da disposição de servir e despertar vida nas pessoas.

Mas não somente os monges beneditinos defendem a espiritualidade como uma vertente essencial da liderança. Muitos gestores já validam a dimensão espiritual como uma forma eficaz e duradoura de engajar e motivar equipes. Na Universidade de Caxias do Sul (UCS), por exemplo, foi lançado em 2014 o curso de pós-graduação em Espiritualidade do Trabalho. O foco da especialização é a espiritualidade como ferramenta para gestão de pessoas. A ideia é ter um ambiente de trabalho acolhedor, sem perder de vista a produtividade e prosperidade do negócio.

Na minha experiência como coach, percebo uma grande sede por parte dos executivos e empresários de se abastecerem com algo maior do que conhecimento, técnicas e métodos. Em determinado momento da carreira muitos se deparam com a verdade que por mais competentes que sejam, há interferências, assim como soluções, que só surgem com o auxílio do Alto. Na minha opinião, uns dos maiores ganhos que a prática da espiritualidade traz à vida profissional são a organização das emoções, o discernimento nas decisões e a qualidade nas relações.  Quando nos deixamos ser movidos pela força de Deus, ganhamos resistência para superar as oscilações da alma, sabedoria para tomar a melhor decisão e capacidade de nos relacionarmos com justiça e compaixão.

Com a prática da espiritualidade, o trabalho deixa de ser só uma profissão e passa a ser uma vocação, assim como a liderança deixa de ser encarada como um cargo e passa a ser vivida como uma missão. A espiritualidade nos faz ver além e encontrar um sentido maior em tudo que fazemos. Convida-nos a crescer na essência e no eterno, de forma que aquilo que é efêmero ou superficial não ocupe o lugar central. O espaço que se abre para a espiritualidade, é certamente um espaço que se abre a si próprio, pois quanto mais procuramos Deus, mais achamos nós mesmos, e quanto mais mergulhamos em nossa alma, mais perto chegamos Dele.

Por fim, a força desse encontro com Deus e consigo próprio, impele-nos em direção ao outro. O líder espiritualizado tende a ter um olhar mais atento para seu entorno, capaz de enxergar as pessoas antes dos resultados que elas precisam entregar. Na presença de alguém que lideramos, é válido o pensamento: “não estou diante de um problema a resolver nem de uma meta a conquistar, estou primeiramente diante de uma pessoa a servir”. Vale ressaltar que a via é de mão dupla: assim como a espiritualidade nos faz ser líderes mais humanos, praticar a nossa humanidade na liderança nos faz ser líderes mais espiritualizados.

 

Publicado originalmente na coluna Viver Melhor do Diário do Nordeste no dia 26/05/2018

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