Desenvolvendo mentes e corações

Capítulo do livro a Bíblia do Coaching escrito por Marília Fiuza.

Inquietações Propositivas sobre os pilares e princípios que regem o Coaching

O objetivo deste capítulo é provocar uma reflexão sobre os propósitos e a essência do Coaching e convidá-lo a revisitar todo o seu entendimento sobre o tema. Apresento a simplicidade como um caminho de sucesso, o fracasso como parte inerente ao processo e os “milagres” que o Coaching realiza como possíveis distorções. Quero contribuir para formar Coaches mais focados na sustentabilidade das mudanças, menos apressados em levar às pessoas a agirem e mais interessados, sobretudo, em inspirá-las a aprenderem.

Para fundamentar a minha forma de compreender o Coaching, recorrerei a duas fontes essenciais:

  1. as contribuições dos autores e palestrantes que tive a oportunidade de ler e ouvir nas conferências do IOC (Institute of Coaching – instituição de pesquisa em coaching aliada a Harvard Medical School); e
  2. a coleção de livros que considero o mais importante e impactante para o desenvolvimento humano: a Bíblia.

Foi durante as conferências do IOC que percebi que o Coaching é muito mais simples do que eu o compreendia. Aprendi que um excelente Coach prova sua competência quando tem total domínio das técnicas a ponto de saber deixá-las de lado quando não forem necessárias. Carol Kauffman, Presidente do IOC, em uma das suas palestras, afirmou: “Coaching tem a ver com estrutura, mas também com flexibilidade”. Está relacionado com a mente e com o coração. Coaching não faz milagres e também não garante sucesso. É um processo simples que se torna extremamente extraordinário, não pelo mérito do Coach, mas pelo potencial de transformação que um diálogo de Coaching pode proporcionar.

Devo confessar, no entanto, que, apesar de extremamente encantada com tantos livros que li e cursos que fiz na área de Coaching, nunca encontrei, e acredito que nunca encontrarei, alguma fonte de instrução mais completa, mais reveladora e mais prática do que a Bíblia.

Concordo com Pitágoras, um dos maiores matemáticos da história, quando afirma “que a melhor maneira que o homem dispõe para aperfeiçoar-se, é aproximar-se de Deus”. Este contato promove o crescimento do homem sobre valores fundamentais, os quais o tornam competente para o trabalho e competente para a vida! A Bíblia é um manual completo para o desenvolvimento humano e fez-me compreender que, além da competência de cada indivíduo, existe uma Força Maior que nos possibilita a ser e realizar tudo o que somos capazes, mesmo quando nossas forças e possibilidades se esgotam.

As reflexões provocadas pelo IOC e pela Bíblia deixam-me constantemente intrigada em relação a algumas propostas e princípios que são mais frequentemente associados ao Coaching.

AMPLIANDO O ENTENDIMENTO SOBRE OS PRINCÍPIOS DO COACHING

De uma forma geral, o Coaching é regido por alguns princípios que funcionam como um norte e geram grandes oportunidades de transformação, porém esses mesmos princípios podem também provocar interferências negativas no processo quando conduzidos de forma desequilibrada. Gostaria de propor uma visão mais ampla desses princípios, sem jamais desvalorizá-los.

  • Foco na Ação

“Há mais na vida do que somente aumentar a velocidade” (Gandhi)

O  Coaching é essencialmente compreendido como um processo que leva o indivíduo a agir, a fazer acontecer e a realizar. Uma comunicação focada em ação é bastante favorável para o desenvolvimento humano, eu diria até essencial, mas também limitada. O grande segredo está na conexão entre o aprendizado e a ação. Percebo que grande parte dos Coaches tem pressa em fazer as pessoas entrar em ação sem antes sedimentarem os aprendizados extraídos de cada situação.

Não quero de forma alguma subestimar o valor da ação, ao contrário, considero-a essencial no processo. O que questiono é a cultura de medição do valor das pessoas na qual estamos inseridos. As pessoas parecem ser valorizadas pelos resultados que geram, pelas metas que alcançam e por tudo aquilo que fazem; mais do que pelo que são, pelo que aprendem ou se esforçam. As empresas não têm tempo para valorizar o esforço ou o aprendizado; quem vale é quem gera resultado. Até nós, pais, somos inclinados a descrever nossos filhos focando nas notas que tiram, nos gols que fazem, nos instrumentos que tocam, nas músicas que cantam ou nas línguas que falam.

No meu entendimento, o Coaching deve valorizar e reconhecer cada indivíduo por tudo o que ele é e aprende. Quando as pessoas são valorizadas pelo que fazem, a dimensão do ser fica em plano secundário, e as pessoas passam a crer que, para serem amadas e valorizadas, precisam “fazer” coisas, podendo, assim, dar provas de quem são. Paradoxalmente, essa pressão interna que criamos é o primeiro passo para não conseguirmos uma alta performance.

  • Foco no Futuro

Sabemos que o Coaching é essencialmente um processo de reflexão sobre o futuro, com levantamento de objetivos, metas e sonhos. Exploramos, também, o cenário atual, mas a maior energia é dispensada para o desenho do cenário futuro. Devemos, sim, ter projetos, sem eles não temos motivação e qualquer caminho passa a ser uma opção.

Por outro lado, percebo que o excesso de foco no futuro nos faz perder a beleza do presente. Ás vezes, de tanto olharmos para o placar, perdemos o jogo; de tanto olharmos para o destino, perdemos a beleza do caminho. Compreendo que o Coaching é um processo que deve ampliar a visão de futuro, mas deve estimular as pessoas a apreciarem as paisagens ao longo da jornada.

Já vi pessoas saírem mais aceleradas de um processo de Coaching do que quando chegaram. Queremos, sim, velocidade, mas não estresse. Sabemos que a diferença do remédio para o veneno está na dosagem, portanto, ter foco no futuro é muito bom, devemos somente ter cuidado com a intensidade de energia que dispensamos a ele.

  • Autoresponsabilidade

Outro princípio do Coaching é a autorresponsabilidade que é entendida como a capacidade do indivíduo de responsabilizar-se pelo seu próprio processo de desenvolvimento e por todas as suas escolhas. Tudo certo! Cada pessoa deve de fato responsabilizar-se pelas suas decisões e consequências. No meu entendimento, autorresponsabilidade é, de fato, um dos princípios fundamentais para quem deseja uma vida cheia de sentido. Transferir responsabilidade para os outros é um atraso, até para Deus. Cabe a Ele realizar o impossível e a nós todo o possível. Dos aprendizados que o Coaching já me proporcionou, um dos mais significativos e transformadores foi que Deus não fará por mim o que cabe a mim realizar.

Por sua vez, a Bíblia me fez compreender que, se Deus não tem controle de tudo – afinal, Ele respeita meu livre-arbítrio -, muito menos terei eu. O que temos é liberdade para decidir, não controle. Não concordo com frases do tipo: “Somos responsáveis por tudo o que nos acontece”; “Tudo está sob nosso controle”. O próprio Coaching nos ensina que generalizações tendem a distorcer a realidade. Quando dizemos que “tudo depende de nós” estamos correndo o risco de não levar em consideração que há intervenções de Deus, ou dos homens, que podem mudar a rota do nosso plano. O que quero é provocar uma reflexão sobre os limites entre a autoresponsabilidade e autossuficiência. A linha é bem tênue entre responsabilizar-se por nossas escolhas e querer assumir uma posição que não é nossa, mas, sim, de Deus.

A Oração da Serenidade resume perfeitamente o meu entendimento sobre o papel de Deus e o meu: “Senhor, concedei-me a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso modificar, coragem para modificar as coisas que eu posso, e sabedoria para saber a diferença”.

Concluo com a dica: “confie em Deus como se tudo dependesse d’Ele e aja como se tudo dependesse de você”.

  • Elevação de Expectativa

Conhecemos a Lei da Expectativa, muito difundida por Brian Tracy, como uma das Leis Universais do Sucesso. Definitivamente, essa “lei” é uma das que me deixa mais intrigada. Sabemos também que um dos propósitos do coaching é elevar o nível de expectativa que o cliente tem si, do seu futuro e da sua vida. Compreendo que, de fato, se não temos expectativas do nosso próprio potencial, de um futuro brilhante e de uma vida cheia de sentido, ficamos suscetíveis a uma vida mediana e, às vezes, até medíocre.

Por outro lado, o que me intriga é que inúmeras pessoas que tenho como exemplo de sucesso, acredito que nunca tiveram a pretensão de um dia ser. Penso que, inclusive, nunca quiseram ser “grandes” ou importantes. Nelson Mandela, por exemplo, não parece ter um perfil de alguém que um dia sonhou em ser referência para o mundo. Madre Teresa de Calcutá, muito menos. Uma vez perguntei a um empresário bem sucedido: “Algum dia o senhor sonhou em ser quem é e ter tudo isso que tem?”. Ele disse: “Nunca pensei em ser “grande”, sempre foquei em fazer o melhor a cada dia, os resultados vieram por consequência”.

Esses exemplos me levam a crer que a despretensão, muitas vezes, funciona como caminho de sucesso e que a humildade também pode nos levar ao topo. Em Provérbios (18,12) há uma passagem que diz: “A humildade precede a honra”.

Entendo que os Coaches devem contribuir para incentivar cada pessoa a acreditar que pode ser e realizar muito mais do que imagina, mas devem, ao mesmo tempo, conduzi-la a encontrar sua grandiosidade na consciência de sua pequenez. São Paulo, na sua carta escrita aos Romanos (12,3.16), diz “Recomendo a todos e a cada um: não façam de si próprios uma opinião maior do que convém, mas um conceito razoavelmente modesto […]. Não vos deixeis levar pelo gosto das grandezas; afeiçoa-vos com as coisas modestas. Não sejais sábios aos vossos próprios olhos”.

CONCLUSÃO

A eficácia do Coaching está mais do que comprovada cientificamente. Os resultados já estão aí para evidenciar o nível de impacto que um processo de Coaching pode causar na vida de um indivíduo, Para alguns, não passa de “moda”; para mim e para muitos, representou um marco significativo. Por meio do seu método socrático, o Coaching consegue provocar um nível de reflexão, aprendizado e ação que poucas abordagens de desenvolvimento humano conseguem alcançar. Existem algumas propostas e alguns princípios sobre os quais o Coaching se fundamenta, como: foco na ação, foco no futuro, autorresponsabilidade e elevação da expectativa.

O capítulo apresenta um convite a refletir sobre esses princípios a partir de uma perspectiva mais ampla, em que o Coaching vai muito mais além do que alcançar objetivos e nem sempre o “pensar grande” é o caminho do sucesso.  

Tendo como fonte de inspiração a literatura contemplada no IOC (Institute if Coaching – Harvard Medical School) e a Bíblia, algumas características essenciais são propostas para Coaches e líderes em geral que desejam desenvolver mentes e corações e buscam exercer a profissão com competência, com alma e paixão!

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