Descubra seu ponto cego

 

Joseph Luft e Harry Ingham desenvolveram uma ferramenta conceitual com o objetivo de auxiliar o entendimento da comunicação entre as pessoas e da forma que elas aprendem quando estão em grupo. A ferramenta, titulada “Janela de Johari”, é ilustrada como um quadrante dividido em quatro janelas. A primeira janela é a aberta. Essa janela representa todas as características comportamentais que são conhecidas por nós mesmos como também pelos outros. A segunda janela, é a oculta, aquela onde está escondido o que sabemos de nós mesmos, mas que é camuflado para todos ou para a maioria das pessoas. Uma outra janela é a desconhecida, espaço onde está tudo aquilo que nem os outros nem nós mesmos conhecemos a nosso respeito. E a última janela, aquela sobre a qual quero hoje colocar o nosso olhar… a janela cega. É neste lugar que estão nossas características que são vistas pelos outros, mas ainda não percebidas ou assumidas por nós mesmos.

Nossos pontos cegos não necessariamente são pontos negativos, muitos deles são forças e virtudes vistas pelos outros, mas que ainda não conseguimos nos apropriar. Já vivi tantas experiências onde pude enxergar na pessoa o que ela própria não conseguia acessar. Uma nobre missão para todos nós é sermos instrumentos uns aos outros para ajudarmos mutuamente a enxergar o que não conseguimos ver ou nos apossar.

O olhar do outro tem muito a nos revelar. O outro nos assiste de camarote e tem condições de enxergar o que estamos comunicando mais do que nós mesmos do ângulo onde nos posicionamos. Muitos não crescem porque não estão dispostos a conhecer o que não sabem de si mesmos. Buscam reforçar apenas o que já conhecem e evitam escutar o que pode vir a doer. Investigar o que os outros enxergam na nossa forma de ser é um ato nobre que poucos tem coragem de fazer. É preciso humildade e valentia para querer ser curado das próprias cegueiras, para deixar-se ser corrigido no que preciso for e ser modificado mesmo que cause dor. É preciso também vencer a vaidade, o orgulho e a pretensão de achar que em nossas certezas está a razão.

Vale ressaltar que o ponto de vista do outro também não é a verdade sobre cada um de nós, mas é um olhar fundamental que deve ser considerado em toda e qualquer jornada de autoconhecimento. Muitas vezes conhecer como o outro nos enxerga causa frustração, mas pior que essa dor é a da ilusão. Achar que somos mais ou menos do que verdadeiramente somos trará, mais cedo ou mais tarde, um sentimento de desordem, de desalinhamento ou inadequação.

Ninguém é absoluto e muito menos nossas verdades. O que sabemos de nós mesmos é só uma parte do que somos. Não devemos ousar dizer que conhecemos a nós mesmos, portanto, sobre os outros muito menos poderemos. Na minha opinião ninguém pode se atrever a “ler” alguém. O que podemos é compartilhar o que enxergamos do nosso ponto de vista, que, longe de ser a verdade, é tão somente a vista do nosso ponto. Quando feito com amor, pode ser um ato transformador.

Descubra seus pontos cegos para crescer. Escute o que o outro tem a falar sem se justificar. A força da transformação está na decisão de buscar se conhecer, custe o que custar, doa o que doer. Lembre que só cresce quem é fiel ao que se aprende. Medite sobre suas experiências e conteste suas próprias crenças. Busque saber como o outro lhe vê. Vença seu ego, mergulhe nos seus pontos cegos. Desconfie de suas certezas e encare o que talvez seja só ilusão, pois lá, na sua janela cega, está seu grande potencial de crescimento e transformação.

 

Publicado originalmente na coluna Viver Melhor do Diário do Nordeste no dia 08/06/2018

Comentários

comentários