A beleza do comum

 

Na Igreja Católica, os cristãos vivem um calendário litúrgico único que contempla o “Tempo de Advento”, “Tempo de Natal”, “Tempo Quaresmal”, “Tempo Pascal” e “Tempo Comum”, que é o tempo que vivemos hoje. Esse tempo da Igreja convida os cristãos a refletirem sobre os momentos simples da vida cotidiana e colocá-los sob a luz da vida de Cristo. Tempo para aprendermos com a Sua história; como Deus e como Homem. Tempo para conhecermos mais a pessoa de Jesus e nele encontrarmos luz para muitos desafios que buscamos vencer no dia a dia de nossas vidas.  

 

Estamos no tempo de resgatarmos o poder da simplicidade e nela enxergarmos o extraordinário acontecer. No tempo comum vivemos a vida como ela é: vida de dor e felicidade; de medos e coragem. Tempo que não deixa de ser especial só por ser comum. O amor também é comum e, ao mesmo tempo, o que temos de mais especial. É tempo para amar o que é “normal”: família, amigos, trabalho, o dia a dia, a rotina… A vida! Estamos no tempo para construir mais um capítulo da nossa história e batizar esse tempo com o nome que queiramos escolher. Tempo para cuidar, zelar e sedimentar o que vem sendo construído ou tempo para criar, inovar e experimentar o ainda não-conhecido? Independentemente do tempo que for, sempre é o tempo do amor! Tempo para fortalecer a essência e reorganizar os pensamentos e o coração. Tempo de calibração. Tempo para voltar-se para dentro e checar mais uma vez: estou no caminho correto? Está certa a direção?

 

Esse é o tempo comum. Tempo para refletir, fazer os ajustes necessários e prosseguir. Tempo para reclamar menos e fazer mais; para seguir na estrada e fazer acontecer.  Tempo de viver! Viver nossa humanidade e nela encontrar a presença de Deus. Viver a verdade que somos:  embora únicos e especiais, somos também comuns e quase iguais! Comuns porque todos nós temos sonhos, desejos, medos, problemas, inseguranças, virtudes, dúvidas e preocupações. Por mais falhos que sejamos, temos lá dentro um desejo igual de sermos melhores, de sermos úteis e importantes na vida de alguém. Todos nós queremos de alguma forma contribuir, fazer a diferença, crescer, evoluir! Queremos uma vida que vale a pena ser vivida. Queremos um espaço no mundo, queremos ser amados, ser lembrados, deixar algo. Queremos ter um significado.

 

Tempo, portanto, para nos voltarmos para o outro sem procurar identificar o que nos diferencia, mas o que nos faz tão semelhantes. Para que ser diferenciado? Quem quer ser especial corre o risco de tornar-se “copo de cristal” . Pode tornar-se tão único, tão lindo, tão diferente, tão raro, tão caro que ninguém usa… fica na prateleira. Para que afinal? Mais importante do que ser diferente e especial é fazer a diferença, mesmo sendo comum ou igual.

 

Abracemos a beleza do comum, da despretensão, da liberdade de não querermos ser o mais ou o melhor. Abracemos a beleza do tempo que nos convida simplesmente a sermos humanos. Quanto mais humanos nos tornamos, mais divinos passamos a ser. Olhemos para o nosso Senhor e peçamos a Ele que no ordinário da vida, possamos viver e revelar o extraordinário do amor.

 

Publicado originalmente na coluna Viver Melhor do Diário do Nordeste no dia 12/08/2017


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